
A grande maioria dos meus companheiros de trabalho só sabe reclamar quanto a exiguidade de nossos honorários...
Naturalmente que todo profissional deve lutar por melhorias quanto a seus vencimentos e quanto a seu ambiente de trabalho.
Reclamar pois não basta...
Confeso de minha parte que não tenho lutado muito... e reclamado muito menos.
Alias, não reclamo.
Pois a reclamar prefiria lutar.
Reclamar é sinal de impotência e as vezes de comodismo até, enquanto que lutar é sinal de coragem...
Solidarizo-me com a luta empreendida pela maior parte de meus companheiros de trabalho, inda que seja inglória, devido ao alto gráu de desunião que caracteriza nossa categoria professoral.
Participo das mobilizações pacíficas na medida em que minhas atribuições e compromissos lho permitem.
Revoltado e amargo porém não o sou.
Talvez até porque minha situação econômica seja um tanto diversa da situação porque passa a grande maioria dos educadores deste país.
Afinal sendo solteiro e morando em habitação própria em companhia de minha mãe e não tendo dívida alguma, sou constrangido a confesar que os rendimentos que ganho são mais do que suficientes... ao menos para mim (!!!), permitindo-me enclusive algumas excentricidades e benemerencias ocasionais.
Por outro lado não posso me queixar do trabalho já porque tendo passado vinte anos estudando creio dominar perfeitamente bem o conteúdo das matérias que ministro, tendo todos os módulos de aulas, avaliações e gabaritos adrede preparados... Meu horário de trabalho portanto resume-se praticamente ao tempo que passo em sala de aula, ou seja, a cerca de quatro horas diárias, haja visto, que trabalho a noite.
Portanto tomando a mim mesmo como padrão posso dizer que não ganho lá tão mal...
Problemas de indisciplina ordinariamente não lhos enfrento pois sei empregar muito bem os mecanismos de disciplina que me são franqueados pela organização escolar.
É pois relativamente tranquila minha vida professoral e não tenho motivo algum para troca-la por outra qualquer.
Realizei-me em minha profissão é tudo quanto posso dizer.
Sou honrado por minha direção, respeitado por minha coordenação, estimado por meis alunos e até querido por alguns de meus companheiros de profissão...
Não tenho do que me queixar, exceto de alguns problemas estruturais... entretanto, o que não tem remédio...
Afinal o campo existêncial que é posto diante de mim pela atividade educativa, é fascinante...
Quanta riqueza, quanta vitalidade, quanta variedade que são franqueadas a minha experiência pela atividade professoral?
Como estudioso e pesquisador nas esferas da sociologia, da psicologia, da parapsicologia, da História e do folclore foi verdadeiramente imensa a gama de fatos, de dados e de informações que pude adquirir e registrar em sala de aula.
Mesmo porque sempre fui adepto do questionário social e dos sociogramas...
O que não me impede de efetuar outras tantas pesquisas de campo com minhas turmas.
Especialmente os 'alunos problemas' se analisados em seu 'locus' social ou em sua estrutura psiquica, nos auxiliam a compreender melhos as causas das situações de anômia ou de acracia porque passamos em nossas salas e a planejar estratégias que possibilitem sua superação.
Como seria mais fácil para todos nós educadores construir estratégias tendo em vista a extinção da indisciplina e a promoção do saber em nossas salas, caso estivessemos dispostos a observar nossos alunos com um tantinho mais de atenção... quantas coisas, quantos sinais, quantos segredos, quantos dramas do quotidiano seriamos capazes de descobrir e de na medida do possivel reverter...
E no entanto poucos são os mestres que prestam ou que desejam prestar atenção nos 'alunos problemas' com o intuito de tentar compreende-los e de descobrir o pôrque de suas atitudes... No mais das vezes contenta-mo-nos com o rotular ingênua, romântica e inadequadamente nossos alunos como bons e maus... puro maniqueismo.
Recentemente havia em uma de minhas classes uma jovem bastante conversadeira, andeja e irriquieta...
Segundo a disciplina que adoto em minhas classes os educandos geralmente não gritam, nem tagarelam animadamente, nem circulam livremente pela sala... falam normalmente e na medida em que é necessário e circulam do mesmo modo... E no entanto algo naquela jovem fez com que eu procedesse com cerca flexibilidade com relação a ela e disto resultaram duas atitudes de sua parte:
- Passou a esforçar-se para falar e circular cada vez menos durante as minhas aulas.
- Aproximou-se cada vez mais de mim, tencionando entabolar uma possível amizade.
E no entanto a cada reunião do conselho eu ouvia os seguintes comentários sobre a dita aluna:
-- Ralhei com X, mas ela não deu a mínima atenção...
-- Por mais que grite e ameaçe a X, ela não colabora...
-- Ontem foi obrigado a por X fora de aula, afinal ela não parava de falar e de circular pela sala.
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Só de observar a dita aluna pelo espaço de uma semana, havia chegado a conclusão de que a jovenzita não falava ou punha-se a circular pela sala por 'pura maldade' ou birra, mas como que por um impulso mecânico, ao qual tentava inclusive resistir. Estava pois diante de mais um caso de hiperatividade e sabia muito bem que ralhar com a jovem, ameaça-la, puni-la, etc não produziria efeito algum...
A única forma de contornar o problema da hiperatividade é ganhando e não perdendo a estima do educando. Pois na medida em que o educando passar a encara-lo com afeto e respeito e na medida em que considerar interesantes suas aulas, esforçar-se-a por conter-se...
Fazer-se detestar por um hiperativo ou por um TDA é perde-lo e converte-lo num caso perdido...
Felismente eu havia estudado bastante o assunto e estava preparado para enfrenta-lo.
E assim ao invés de bater de frente com X, apostei na tolerância, tentanto fazer com que ela percebesse que eu a compreendia e não que a condenava sem antes ouvi-la...
Também é necessário preparar atividades suplementares para o hiperativo e o TDA, levando em conta seu ritmo de trabalho mais acelerado e a necessidade de impedir que tal aluno fique 'livre' ou seja sem ter o que fazer. Do contrário, por mais bem intencionado que seja o hiperativo ou o TDA, acabará por por fogo na sala de aula.
É pois dever do professor inteligente, ocupa-lo!!!
E no entanto manda-lo para a diretoria da menos trabalho do que produzir ou trazer de casa atividades suplementares...
É possivel que um salário tanto mais digno e justo, motivasse os profissionais da educação para que se preocupassem mais com tais problemas, todavia julgo que tal questão seja antes de tudo uma questão de humanidade...
Enfrentar o governo através de greves é ato de virilidada... sabotar as aulas com a desculpa de que se ganha muito pouco é a mais supina das canalhices! Pois o verdadeiro culpado pela situação é o governador e não o educando, este é tão vítima quanto nós e caso venha a ser prejudicado por alguma falha em nossa atuação tornar-se-a duas vezes vítima do sistema...
Posteriormente a aluna X acabou procurando-me e desabafando:
Por mais que tentasse jamais conseguia parar de andar ou de falar o tempo todo, o que fazia-a sofrer muito.
Segundo a orientação médica que haviam recebido seus pais matricularam-na em diversos cursos: dança, inglês, informática, etc...
Também tomava calmantes todos os dias...
E no entanto seu ritmo continuava acelerado e sua ansiedade intensa.
Segundo informou-me havia tentado falar com alguns dos professores, mas sempre que tencionava faze-lo, sentia-se intimidade pela frieza ou pelas aspereza dos mesmos sendo eu o primeiro e o único que se dispuze-la a ouvi-la.
Disse ainda que gostava muito de minhas aulas porque eram bem mais dinâmicas que as dos outros professores e que faria o máximo de sí para não atrapalha-las como alias já estava fazendo...
Enfim minha tática surtira efeito só me restando dar-lhe um forte abraço, dizer que lha compreendia e que admirava-a muito por seus esforços...
Jamais tive problemas com aquela aluna, a qual por sinal melhorou extraordinariamente seus redimentos escolares.
Penso no entanto que quem mais aprendeu e se tornou mais humano com tal experiência fui eu.
Durante mais de um ano empreendi pesquisas com meus alunos no campo da paranormalidade, da precognição e da telepatia podendo constatar que as experiências empreendidas por De Rochas, Richet, Warcollier, Rizill e Rhine, correspondiam a veracidade dos fatos e numa proporção ainda maior que a verificada por eles.
Isto para ser suscinto...
No fim das contas meu ofício pode ser descrito como uma troca. Pois sequer é necessário que haja intenção de ensinar da parte de meus alunos para que eu possa aprender com eles, basta, de minha parte, que observe e observe atentamente o ambiente para que aprenda todos os dias...
Ah se esses aluninhos pudessem calcular o quanto lhes devo... estaria falido!
Embora também haja certo aprendizado tanto mais efetivo de minha parte com relação eles.
Gostei muito de aprender com um de meus alunos que Thomas Alva Edinson patenteou 1300 invenções. Eis uma informação que dificilmente esquecerei... Como o amigo leitor pode ver eles também são capazes de nos ensinar...
Afinal devemos banir para sempre de nossas mentes a falsa idéia de que o professor sempre sabe tudo ou de que ele é infálivel...
Pois uma coisa é ser bem informado, competente, capaz e perfeccionista e outra totalmente distinta ser onisciente ou inerrante.
E nenhum ser humano é onisciente ou inerrante. Todos somos límitados e passiveis de erro.
Nada mais patético do que aquele tipo de professor supinamente ignorante que afeta tudo saber e que pretendendo tudo responder com absoluta certeza, engana seus alunos fornecendo-lhe informações falsas tiradas de sua própria cabeça.
Já por diversas vezes tive de responder a um ou outro de meus alunos: 'francamente não detenho tal informação' ou 'lamentavelmente não sou capaz de responder a sua pergunta', ou ainda 'Isto não sei, mas hei de pesquisar e assim que dispor da resposta lha fornecerei, isto caso vôce não lha encontre antes. Neste caso tenha a bondade de informar a mim e a seus companheiros de classe.'...
Pois trata-se de pura e simples honestidade intelectual!!!
Noutras circunstâncias fui obrigado a dizer: 'Não estou totalmente certo, creio porém que as coisas tenha se passado deste modo (...)'
Se o Mestre teve a ombridade de reconhecer sua condição ao dizer "Só sei que nada sei.", que haverei de dizer eu?
Fora deste aspecto formativo de nossa profissão há ainda o aspecto lúdico da mesma na medida em que nos deparamos continuamente com o grotesco já na sala dos professores, já nas salas de aula... e aprendemos dia após dia sobre o pedantesco, o patético, o ridículo e morremos de rir interiormente...
Um amigo meu chegou a dizer que:
-- Digam o que disserem, que ganhamos mal, que nosso ambiente de trabalho é precário, que enfrentamos situações perigosas, etc o que ninguém pode dizer em sã consciência é que não nos divertimos todos os dias...
Concordo em gênero, número e gráu...
Pois não passo um dia sem me divertir... as vezes mal chego em casa, fatigado, e quase estouro de tanto rir...
A guiza de exemplo narrarei apenas um fato, absolutamente verídico, testemunhado por mim numa de nossas escolas aqui da região:
Certa vez peguei algumas aulas livres numa escola, na qual um dos professores era esposo da diretora, julgando-se por isso invulnerável.
O dito professor lecionava em todas as oitavas séries e não tinha papas na lingua, sendo bastante conhecido de todos por sua fala livre e desbragada...
Certo dia houve porém que estourou pavorosa briga durante o intervalo da tarde, rolando um aluno e uma aluna, ambos da oitava série pelo chão do pátio e saindo o garoto todo arranhado e mordido.
Como era de praxe foram ambos conduzidos ao gabinete da Sra Diretora - a esposa do profo X - com o objetivo de prestarem os devidos esclarecimentos.
-- Porque a Srta. fez isto com o rapaz? Perguntou a diretora encolerizada.
-- Porque esse moleque retirou do bolso uma nota de cinco reais e me disse: fica comigo por cinco, já que as putas do cais cobra dez...
Ao ouvir tais palavras a Diretora - que por pouco não infartou ali mesmo - deu um giro e exclamou (quase pondo o dedo no nariz do menino):
-- Então é isso que o sem vergonha do seu pai te ensina em casa seu porqueira!
-- Não meu pai, jamais disse uma coisa destas, revidou o menino muito calmamente...
-- Então quem foi o cachorro e salafrario que te disse uma barbaridade dessas seu encapetado? Retrucou a administradora escolar.
-- Foi seu marido, o profo X, que disse para todo mundo na minha sala: quando minha mulher não quer nada comigo, não brigo com ela como vôces, todo uma notinha dessas aqui - tirou a nota da carteira e mostrou aos alunos - de dez e vou para o cais pegar uma puta qualquer...
& arrematou apontando para a coleguinha:
Então calculei que essa putinha ai custa mais barato...
Segundo ouvi dizer mais tarde a menina recebeu uma caixa de doces finos e o menino um comovido pedido de perdão da parte da Diretora... isto é claro depois que ela se recuperou do desmaio...
Quanto ao profo X, jamais pude saber o que aconteceu com ele...
Isto ouvi - entre risos e gargalhadas - das vices diretoras e coordenadoras da referida unidade escolar, que testemunharam tudinho. Depois, como não sou bobo, fui perguntar aos aluninhos, que confirmaram tudo tim tim por tim tim...
Além deste conheço uma infinidade de causos da vida real sucedidos com diretores, professores e alunos em nossas escolas...
Assim quando for velho poderei escrever um livro de piadas e ganhar mais dinheiro que o Costinha e o Ari Toledo...
Nóis trabaia qui nem escravo, mais qui nóis ri, nóis ri...