Portanto se podemos prescindir do estudo da escolástica em termos de Filosofia pura, passando diretamente de Filiponos a Ficcino, os alexandrinistas e averroistas, o mesmo não se dá nos termos de História da Filosofia.
Pois a História da Filosofia é em ultima analise a História da sistematização da racionalidade pelos antigos gregos e de sua re-sistematização pelos modernos, no entanto estre estas duas fases do pensamento filosofico, separadas por um curto periodo de fideismo, depara-mo-nos com uma fase de transição na qual a retomada do padrão racional naquilo que tem de mais peculiar, ocorre dentro dum sistema religioso sob a forma teologica. Esta fase de transição é a escolástica...
Pois com o objetivo de construir um sistema teologico inabalavel, tiveram os primeiros teologos de resgatar as ilustres figuras de Sócrates, Platão, Aristoteles, Zenon e outros pensadores há muito esquecidos e cujas obras dormiam há seculos no pó dos mosteiros e abadias da Europa.
Instante glorioso este no qual cinco séculos após o fechamento da acadêmia, do liceu e do pórtico, os nomes de Platão, Aristóteles e Zenon tornaram a ser pronunciados com a devida reverência. Gostem ou não os modernos tal seviço foi feito pelos sacerdotes Cristãos...
Foi a partir deste impulso inicial que a Filosofia acabou por renascer e se desenvolver no Ocidente.
Pois uma vez que o homem fora convidado a pensar sobre sua fé, a ponderar, a refletir, a pesar as evidências, a examinar os argumentos... o pensar tornou-se para ele uma espécie de vício que pouco a pouco foi atigindo e contaminando todas as areas do saber...
Após refletir sobre os mistérios da religião e tentar compreende-los este mesmo homem passou a refletir sobre o mundo, sobre si mesmo e sobre a sociedade em que vive e este foi o ponto de partida para o renascimento cientifico, fruto do renascimento filosofico...
Um renascimento ocasionou ou outro: o do comércio o das letras, o das letras o da teologia, o da teologia o da Filosofia e o da filosofia o da Ciência, isto cinco séculos depois...
Quando estudamos a História da Filosofia não há como abstrair da escolástica pois ela é como que um elo pertencente a esta cadeia de renascimentos sucessivos e que culminou com o advento do padrão científico de pensamento.
Para nós é muito facil rir as baldas das tôlices escritas pelos escolásticos sobre os anjos e os milagres, no entanto para eles foi um grande desafio retomar um habito há muito abandonado e substituido pela crença cega: o habito de pensar ou seja de solicitar e examinar evidências...
Basta lembrar, que conforme assinalamos, para um Bernardo de Clairvoux e alguns líderes da igreja romana havia algo de extremamente perigoso ou até mesmo de herético por trás disto tudo...
Pois não se satisfazendo mais com a rude simplicidade da fé o escolástico desejava pensar, refletir, analisar... coisas que durante meio milênio ninguém ousara fazer em todo Ocidente...
Não há como fugir deste fato: a retomada daquele padrão de racionalidade afirmado pelos gregos mil e quinhentos anos antes e posteriormente destruido já pela superstição neoplatonica, já pelas invasões bárbaras, já pela mística 'cristã' é merito dos escolásticos e como tal digno de todos os encômios.
Entretanto a Filosofia contemporânea caracteriza-se por uma marcada antipatia com relação a teologia escolástica. A ponto de negar que ela possua algum conteúdo filosofico ou de menospreza-lo...
Mesmo em seus cursos sobre História da Filosofia os pensadores germânicos não costumam a dar muito espaço a escolástica e no fundo o motivo desta ojeiriza é bastante simples: A Filosofia, ou melhor as filosofias alemãs, sempre pretenderam ser algo de totalmente novo produzido pelo gênio alemão em contraposição a filosofia ultrapassada dos antigos gregos, retomada pelos escolásticos e dogmatizada por eles...
Pois durante os séculos subsequentes a sua redescoberta os escritos de Aristoteles passaram a ser como que equiparados em autoridade ao Novo Testamento ou ao Evangelho e citados como oráculos infaliveis...
Tudo, absolutamente tudo se discutia e decidia a luz dos escritos do Estagirita...
Na maior parte das universidades do século XIV a senha era 'magister dixit' e o magister era sempre Aristoteles...
Tudo quanto o filosofo escrevera sobre astronomia, geografia, botânica ou biologia era religiosamente recebido pelos teologos medievais.
Disto resultou uma formidavel reação - até certo ponto justa, necessária e conforme o pensamento do próprio Aristoteles (um dos pioneiros na aplicação do método experimental, base de toda ciência contemporânea) - capitaneada por Erasmo, Bacon e outros, a qual tem se estendido até os dias de hoje - em que pesem os salutares esforços de Trendelenburg, Brentano, Boutroux, etc - e chegado ao extremo de regeitar em bloco todos os enunciados pertencentes ao aristotelismo...
E como o aristotelismo - mais que o platonismo e o cartesianismo - constitui a forma mais elaborada de racionalismo (sem no entanto fixar-se nele na medida em que admite e até preconiza a experimentação) não há nada de extraordinário no fato do anti-aristotelismo ter assumido uma feição empirista/positivista e anti-metafisica (primeiramente na Inglaterra e depois na França) e uma feição idealista, subjetivista e relativista na Alemanha... sempre comportando, nos dois casos, uma fina dose de ceticismo...
Toda a filosofia contemporânea (sobretudo a alemam) - decididamente anti-aristotelica, anti-platonica, anti-socrática e anti-escolástica - orbita em torno destes conceitos: empirismo, materialismo, ceticismo, idealismo, subjetivismo, relativismo, solipsismo... (tudo quanto se opõe ao realismo) e esforça-se por apresenta-los como algo novo ou recentemente descoberto pelo gênio dos Alemães ou dos ingleses...
Daí o horror nutrido pelos sofistas de nossa geração com relação a escolástica... pois a par de suas frioleiras teologicas, nos deparamos nas obras dos escolásticos, com inumeras discussões em torno destes temas (empirismo, materialismo, etc), discussões nas quais cada um deles é submetido a uma crítica bastante acurada para a época sempre do ponto de vista lógico dialético.
Por isso alguém que tenha lido, ao menos de passagem algumas dessas obras, dificilmente acabará tragando o confeito dourado "made in Germany"...
Apesar de suas deficiências e precariedades a teologia escolástica - na mediade em que faz revivar a crítica tecida pelos sistematicos gregos - pode ser considerada como uma eficaz vacina ou até mesmo como um poderoso antidoto contra a verbiloquência estulta dos sofistas alemães...
E como os escolásticos, geralmente eram desprovidos de gênio especulativo ou criador, somos levados a fazer uma perguntazinha inconveniente e a indagar se por acaso tais discussões não fazem parte efetiva daquele patrimônio filosófico que nos foi legado pelos antigos gregos. Pois em ultima analise a escolastica não passa duma reedição cristianizada da filosofia grega no que ela tem de mais clássico e expressimo: os sistemáticos.
Neste momento começamos a perceber que nem tudo é originalidade nos pódromos das filosofias moderna e contemporânea - pois ambas nos querem passar a todo custo a imagem idilica de que ultrapassaram definitivamente as opiniões ingênuas dos sistemáticos - e que parte de seu ideário já fora extensa e profundamente discutido
pelos gregos cerca de cinco séculos antes desta nossa era...
Em sua ignorância e vaidade imaginaram os alemães que estavam a deslindar aspectos totalmente novos da reflexão filosófica, como se só eles possuissem o privilégio de pensar ou fossem os primeiros a faze-lo. No entanto a História da Filofosia nos mostra que séculos antes de Cristo quase todas as questões propostas pela filosofia alemam já haviam sido analisadas, refutadas e por assim condenadas pelos principais expoentes da Filosofia helênica...
Posteriormente - na segunda metade do século XIX e século XX - a arqueologia, a paleografia, a filologia, etc recuperando ao menos uma parte - até então quase que totalmente ignorada pela crítica - dos escritos compostos pelos antigos sofistas, vieram a corroborar o que - a partir das obras compostas pelos sistemáticos e doxografos - há muito já se suspeitava, ou seja, que os rivais de Sócrates, Platão e Aristoteles encarnavam quase que todas as posições hora sustentadas pela filosofia contemporânea...
Pois os Górgias, Protágoras, Antifontes, Hípias, etc em que pesem suas divergências, tendiam ao ceticismo, ao subjetivismo, ao relativismo, etc e outros - incluindo Demócrito de Abdera - ao materialismo e ao empirismo, enquanto outros chegavam as raias do solipsismo... de minha parte julgo que não haja 'novidade' apresentada pelos alemãe que já não tenha sido apresentada por algum sofista e mil vezes refutada por Platão ou Aristóteles...
Outrora era comum ouvirmos dizer que a leitura e o conhecimento das principais obras produzidas pelos escolásticos era de todo inutil ao Filósofo. Hume se não me falhe a memória pretendia queima-las todas numa única fogueira, enquanto o cérebre filosofo de Konisberg parece não ter sequer tomado conhecimento delas...
Hoje tenho ouvido - se bem que com certa reserva - que a leitura e o conhecimento das principais obras produzidas pelos antigos gregos não é de modo algum necessário ao filósofo contemporâneo, porquanto os antigos gregos, enquando racionalistas que eram, estavam adormecidos no sono da dogmática... assim sendo de nada aproveita ao leitor de Nietschze ou de Heiddeger le-los...
E no entanto o pensamento filosofico deveria ser aberto e não fechado; crítico e não aprioristico; reflexivo e não preconceituoso...
Entretanto assim é o homem e a autoridade religiosa de um Aristoteles sucedeu-se a autoridade religiosa de um Cartesius e hoje a autoridade religiosa e quase mística do sifilitico de Silz Marie ou do Filosofo portatil de Hitler...
Ora sustentam seus afiliados que um chacinou a epistemologia e a gnoseologia, que outro escreveu o epitáfio da metáfisica, enquanto um terceiro sepultou o dogmatismo... e no entanto alguém escreveu sobre tais sistemas esta sentença lapidar:
"A tais correntes - da filosofia contemporânea - poder-se-ia dizer o que S Pedro disse a Safira> Já estão a porta os que haverão de conduzir teu cadaver ao cemitério, como acabaram de conduzir o de teu marido..."
- continua
O egoísmo que derruba prédios
8 horas atrás














