Entretando uma tal noção de liberdade que sobreponha cada esfera da atividade humana a lei moral é abosolutamente falaciosa.
Não somos capazes de perceber a força do veneno contido em tais afirmações porque geralmente seus afirmantes se apoiam no fato de que as religiões, igrejas e seitas, num determinado momento se apropriaram da moral e fizeram dela um monopólio seu.
Tendo em vista uma noção equivocada de moral acalentada pela grande maioria das pessoas sob o influxo das mais diversas religiões e crenças, duma noção que tudo confunde e baralha identificando com moralidade o que é pura e simplismente cultura, parte dos ideologos liberais infensos a esfera da religiosidade passaram a negar ou questionar a todo tipo de moralidade ou de valores transcendentes, como se os mesmos não passassem de apendices religiosos...
Procedendo assim admitiram sem questionar e como absolutamente certo que a moral é um departamento ou uma emanação da instituição religiosa e ergueram a bandeira da imoralidade.
Entretanto a História nos mostra que os gregos, muito antes de nossa era souberam separar perfeitamente as duas esferas iniciando a construção de uma moral ou duma ética naturalistas sem quaisquer vinculos ou dependência para com o fenômeno religioso. Um desses gregos geniais foi Sócrates e outro Aristótelos, para sermos suscintos...
Por outro lado o fato não menos verídico de que a moralidade tenha recebido certo contributo e certo influxo de certas religiões como o budismo e o Cristianismo, em nada incrimina a moral inda que admitamos a falsidade de tais expressões religiosas, já porque em seus primórdios a astronômia que hoje é uma ciência respeitável era astrologia, já porque a química foi alquimia, e assim por diante...
Ultimamente o louvavel e nobre empreendimento dos antigos gregos de construir um sistema de moral autonomo com relação as instituições religiosas e credais foi retomado pelos iluministas co século XVIII, como Voltaire e J J Russeau e mais ultimamente ainda pelos racionalistas na esteira de Maine de Biran e E Renan, dentre outros.
Julgo pois que a dicotomia: moral religiosa ou imoralidade não passe de um falso dilema ou dum comodo espantalho empregado pelos liberais.
Convem por isso abrir tal espantalho e conhecer seu recheio...
Se por moral de entende como afirmam as seitas a maneira como se come, bebe, veste, anda, trabalha, etc ou seja todas as minudências da vida humana que tanto deleitam os puritanos, sou obrigado a concordar com Sartre e com os liberais que a moralidade não passa dum jugo ou da mais vil de todas as escravidões...
Entretanto não confundimos moral com costumes ou cultura e não assumimos o ponto de vista dos fariseus e dos puritanos...
Encaramos a moral sob o prisma da alteridade ou da empátia.
A moral segundo a concebemos na esteira de Sócrates, Buda, Jesus, Tolstoi, etc diz respeito a nossa postura com relação ao outro ou seja com as demais pessoas que conosco foram lançadas na corrente da vida e com as quais partilhamos a mesma condição, as mesmas experiências, dores, sofrimentos, etc
Se estamos todos na mesma condição mortal, precária e sujeita a dor e se desejamos, e todos desejam, ser auxiliados em caso de necessidade, é necessário que começemos auxiliando aqueles que precisam para que, ao chegar a nossa vez também sejamos nós compreendidos, ajudados e confortados... o estar sujeito as mesmas situações e circunstâncias desagradeveis bem como a satisfação de ser ajudado deve suscitar em nós o desejo ou a intensão de ajudar.
Especialmente quando se trata do bem mais precioso que cada um de nós possui que é a vida...
Tendo em vista o fato de que a vida é sempre única e irrecuperável se perdida nossa compreenção de moralidade assume imediatamente uma feição vital, porque se põe antes de tudo a serviço da vida que é o bem mais precioso de cada ser humano.
E já podemos compreender a força do preceito "Não matarás."...
Não cogitamos pois que se trate de um fenômeno cultural, externo ou relativo, mas de algo pessoal, interno e absoluto, a um tempo imanente porque brota de nossa consciência mesma e a um tempo transcendente enquanto corresponde a um valor eterno e dinama de uma vontade pela qual o universo veio a ser e é sustentado.
Para nós a liberdade compreendida dentro de seus límites e a razão, comportam uma certa ruptura com as esferas do material e do vital e significam a surgimento dum novo princípio sobre a terra, dum principio que é imaterial e transcendente: o psiquico. Para sermos francos encaramos a manifestação do psiquico no plano vital sob o prisma da sacralidade... a liberdade e o raciocinio são como que sagrados para nós pois correspondem a imagem de um infinito que não vemos.
Sem embargo de tal manifestação o psiquico não se separa do vital ou do material, mas esta associado a ele e dele depende como dum instrumento ou dum parceiro. Quero dizer com isto que a conservação da vida, por exemplo, é imprescindivel para que as pessoas possam exercer suas liberdades, desevolver seu potencial cognitivo e crescer integral e harmoniosamente como pessoas... pessoas que morrem já não exercem suas liberdades, já não aprendem, já não desenvolvem suas potencialidades...
A vida é uma chance ou oportunidade que as pessoas tem para evoluir. O elemento transcendente necessita do substrato vital e corpóreo para levar a frente sua ascenssão...
Portanto não podemos falar em exercicio de liberdade contra a vida... pois a vida é condição para o exercício da liberdade e a a supressão da vida o fim da liberdade. Se a liberdade é boa qualquer termo artificial e volitivo concernente a vida e que lha encurte só poderá ser encarado como mau...
Donde se segue que nenhuma religião, grupo político, ideologia social ou ordem econômica estão investidos do direito de matar ou de suprimir a vida humana. Crenças, ideologias, teorias ou regimes que afirmem a liberdade ou o direito de matar - fora da legítima defesa - devem ser proscritos e banidos e aqueles que puzerem em prática tais conselhos devem cair todos nas malhas da lei e ser enquadrados como vis assassinos ou matadores.
Logo, nem a religião, nem a política, nem a teoria social, nem os meios de comunicação e tampouco a econômia podem em qualquer hipótese sobrepor-se a esfera da moral ou da éticas concebidas em sua legítima e estrita acepção...
O mesmo diz respeito em menor escala é claro aos preceitos, de não roubar, não atraiçoar, não mentir ou qualquer outro dano que possa ser causado ao semelhante. Viver moralmente não é vestir-se de determinada forma ou comer determinados tipos de alimentos e regeitar a outros, tudo isto são preconceitos assimilados pela cultura, viver moralmente é não causar dano ao próximo, especialmente a vida do próximo, mas também a seus bens e a sua dignidade. Nada há nisto de místico, sobrenatural ou religioso, antes tal postulado é absolutamente natural e quase que intuitivo...
Se não desejamos ser acometidos por quaisquer prejuizos da parte dos outros é mister que comecemos por não acometer aos outros causando-lhes prejuizos. Desde quando a reciprocidade vigente no meio diplomático por exemplo é uma superstição?
Se é um a superstição não sei, mas sei que revogada a reciprocidade ou a legalidade que são pristimas emanações da razão, só resta lugar a força ou ao conflito aberto nos termos desenvolvidos pelo sr Nietezche, púpilo do já citado Stirner e todo princípio individualista - que é uma hipertrofia comum a certos tipos de liberalismos - nos conduz a este termo final: a horda saída da caverna ou da floresta primeva!!! Enfim a demolição de toda nossa herança greco-romana... egipcia quiçá...
Porque quando se dá combate a Jesus ou ao Cristianismo se olvida o quanto o Cristianismo incorporou do socratismo ou de tradições humanistas ainda mais vetustas com aquelas que dizem respeito ao obscuro vulto de Iknaton, o faraó pacifista... Sem se perceber Buda, Sócrates, Iknaton e tantos outros sábios instrutores da humanidade são lançados a chamas purificadoras juntamente com o pálido nazareno tão descaracterizado por seus seguidores...
A maioria dos iconoclastas não tem plena consciência quanto a este aspecto da questão. Nietezche tinha e por isso procurou de todas as maneiras macular a figura imortal do grande filho de Fenarete! Porque o Nazareno não esta só, a seu lado estão muitos outros lideres religiosos, ativistas politicos e sociais, filosofos, artistas, etc
Ficar com Stirner e seu púpilo é por de lado a maior parte dos homens sábios e ilustres do passado, como Platão, Aristóteles, Sêneca, Epicteto, etc e do presente como Marx, Tolstoi, Gandhi, H George, etc e admitir que todos estes homens explêndidos estavam radicalmente equivocados. Pois todos, como Jesus, se colocaram ao lado da vida e sustentaram os valores supremos da alteridade...
Compreendida como certas regras comuns de existência tendo em vista a manutenção da vida e da dignidade de cada um numa perspectiva de multiplas liberdades que se limitam para não haver choque ou colisão. E na verdade a moral poder ser definida como um freio das liberdades individuais que livremente se moderam tendo em vista o bem comum: a manutenção da paz. Porque a paz possibilita o avanço do progresso em todas as frentes enquanto que a discórdia e a defecção paralisam o corpo social, drenam suas forças e o fazem regredir...
Portanto a moralidade concebida nos termos da alteridade e da manutenção da vida e da dignidade humana não é um jogo de palavras vazias que alguém inventou em nome de alguma deidade ou que Jesus Cristo fabricou, mas a garantia de toda estalibilidade social sem a qual regressariamos as condições vigentes na pré História como lobos que se devoram uns aos outros. Aquele que se faz lei moral de si mesmo esperando que o próximo faça o mesmo ao invés de oprimi-lo pela força e correr o risco equivalente de ser oprimido e suprimido mostra-se sábio.
Pois se minha mão pode empunhar uma faca a tua também pode...
Mas se a minha não deve faze-lo, nem a tua, nem a de ninguém... então gozamos todos de imunidade e proteção.
E não é necessário que haja qualquer sansão divina para que um pacto como este vigore, basta que todos percebam os beneficios que dele inferimos e que os violadores deste pacto sejam rigorosamente postos a margem da sociedade e punidos. Portanto a esfera da moral deve estar acima de todas as esferas da atividade humana, de todas as áreas e campos do saber humano e por assim dizer nortea-lo dizendo: daqui (da vida humana) tu não irás além!
Concluindo: Nem a religião é permitido matar em nome de Deus fazendo petição a liberdade...
Nem a partido ou ideologia social é permitido roubar ou ensinar que é lícito roubar aquilo que o homem conseguiu com seu próprio esforço e trabalho. (juizo que não se aplica as fortunas amealhadas pelos latifundiários e capitalistas como teremos ocasião de esclarecer)
Nem a imprensa deve propagar mentiras ou esconder informações em nome da liberdade...
Nem os conjuges devem se atraiçoar um ao outro sob o pretexto de que são livres...
Porque a sociedade é composta por membros de diversas agremiações religiosas e qualquer charlatão ou aproveitador pode se apresentar como tendo sido comissionado por deus...
Porque o produto do trabalho pertence a aquele que lho dispendeu...
Porque a imprensa deve estar a serviço da verdade e cumprir uma função social ao invés de servir de instrumento para macular a reputação alheia ou para divulgar puerilidades inuteis como já enfatizava o nosso Roquete Pinto.
Porque os conjuges fizeram compromisso e contrato que deve ser respeitado ou publicamente anulado...
De modo que em esfera alguma da atividade humana o assassinato, o roubo, a mentira ou a traição são desculpáveis ou justificáveis uma vez que atingem em cheio ou a vida, ou a dignidade ou a reputação de seres humanos pertencentes a mesma condição que nós...
Postular como tantos tem feito que em tais campos ou áreas há uma liberdade ilimitade e absoluta que tudo justifica constitui uma ameaça a todos nós seres humanos pertencentes ao corpo social, pois significa a não só a possibilidade mas a conveniência de institutos religiosos, Estados ou organizações as quais é lícito assassinar; de ideologias, partidos ou regimes aos quais seja permitido roubar ou sancionar o roubo; de orgãos de imprensa aos quais seja concedido ocultar dados e fabricar informações manipulando a verdade; de que os conjuges ou amigos possam atraiçoar-se comodamente uns aos outros, etc, etc, etc...
Credos, países, partidos, organismos econômicos, famílias... tudo acaba se furtando e escapando no que diz respeito a moral sob o pretexto duma liberdade absoluta que é sempre uma agressão e uma anulação da liberdade alheia e um princípio de dissolução social.
Por que o mais sólido vinculo que une ou que deveria unir a sociedade em suas diversas áreas e esferas deveria ser a ética ou a moral.
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