
Quando era moleque costumava ouvir os parentes mais velhos discutirem sobre as profecias bíblicas de Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel, dos doze profetas menores e de seu prodigioso cumprimento.
Até hoje quando leio os vaticínios lançados sobre Nínive, Babilônia, Tebas - a afamada Tebas das cem portas - Tiro e outras tantas metrópoles do passado, então vivas e florescentes, não posso conter a admiração e o temor.
Desaparecida a geração dos profetas hebreus que anunciou antecipada e sobrenaturalmente a encarnação e proezas do Verbo divino... levantou-se outra geração de profetas tupiniquins suscitados por Pharran, Vrigen, Francescon, etc
Terá mudado a profecia ou terão mudado os profetas?
Pois se as profecias antigas referentes ao Cristo distinguem-se por sua claridade, limpidez e exatidão, as 'profecias' de hoje se distinguem por sua obscuridade, inexatidão e frivolidade... Pois o objeto das mesmas é qualquer coisa de trivial e vulgar - como calos, ventosidades, namoricos, objetos perdidos, etc - completamente alheio a Cristo e a eternidade.
O que mais me impressiona em tais lucubrações porém é o apanágio do extremo ridículo: galinhas que profetizam, batismo no ônibus, geladeiras fantasmas, etc
Meu propósito é acrescentar mais um testemunho ao já extenso fabulário, ou melhor anedotário, do protestantismo brasileiro.
É necessário apontar e divulgar tudo quanto há de grosseiro nele tendo em visto aqueles que lho encaram seriamente, e quiçá como algo divino...
A história que passo a relatar ouvi pessoalmente das bocas da filha e do genro de um pastor bastante famoso aqui de São Vicente, cidade em que nasci e resido a mais de três décadas.
São Vicente é em grande parte uma favela ou conglomerado de palafitas, os arredores e a zona continental primam pela miséria e pelas condições sub-humanas de vida. O poder público pouco ou nada tem feito para minorar essa situação calamitosamente drástica e num ambiente de ignorância e desespero como este é natural que as massas se lançem de olhos fechados nos braços das seitas e cangêres... seitas e cangêres que se multiplicam nestas terras como cogumelos sobre o extrume.
Por estas bandas a cada dia se abre uma nova portinhola repetindo sempre o mesmo discurso fetichista, mágico e alienador, e amealhando dúzias de incautos.
A maioria dessas pessoas encara com a mais absoluta e cândida seriedade a afirmação de que são amaldiçoados, enfeitiçados ou possessos e que pagando fielmente os dízimos e contribuições estipulados pelo pastor obterão a libertação tão esperada da pobreza, da enfermidade, dos problemas familiares, etc Assim que o dinheiro for posto no envelope a bênção cairá dos céus e todos se tornarão ricos, saudáveis e felizes. É essa mentalidade simplória que predomina nessas regiões e que tem servido de alimento a esses charlatães e parasitas que se auto denominam pastores...
Na verdade os pastores até cumprem uma função social tendo em vista o 'establechement'.
Eles atribuem as causas de todos os problemas que acometem os pobres a deus ou ao diabo, livrando com isso a cara dos políticos, dos empresários e de toda a burguesia. Eles são uma arma bastante eficaz nas mãos do sistema e suas 'pontas de lança' nas regiões em que campeia a mais ignominiosa miséria.
Assim é Sãovicelva ou Sãovitoca, um imenso pasto de ideologias retrógradas, bárbaras, selvagens e supersticiosas... o paraíso da credulidade beócia...
Vejam que há cerca de doze anos, quando tais fatos se sucederam, havia apenas um hospital semi-público para atender a toda população da cidade, que beirava os 250.000 habitantes!!!
Trata-se do quase secular Hospital São José, fundado por um grupo de romanistas devotos nossos antepassados.
Havia neste hospital um interno que acabara de passar por uma intervenção cirúrgica, tendo por objetivo extrair-lhe a parte inferior da perna, comprometida por uma gangrena. O corte fez-se do joelho para baixo e a recuperação era considerada excelente.
Tudo iria bem caso nosso homem fosse ortodoxo, espírita, judeu, maometano, agnósta ou ateu, mas... para a sua infelicidade era crente pentecostal e, como tal, visitado e assediado, quase que diariamente, por uma renca de pastores, profetas e curandeiros na hora da visita.
De fato esses charlatães e curandeiros, acorrem diariamente ao nosso hospital como verdadeiros urubús ou corvos, prometendo livrar da morte os que lha temem ou salvar dos enfermos das dores que lhos atormentam sem necessidade de morfina ou qualquer outra droga. Inda que os doentes estejam devidamente medicados e sarando graças aos remédios preceituados pelos médicos, os pastores têm a audácia de afirmam, dentro do próprio hospital, que tais medicamentos não fazem efeito algum e que as melhoras se devem a suas orações miraculosas!!!
O corticóide é injetado, mas a obra - como dizem - é de Jesus, ou melhor do pastor, porque quem aparece para malbaratear a obra dos médicos não é Jesus, mas o pastor...
Pois bem, no presente caso, o pastor e seus fâmulos, ousaram afirmar ou melhor profetizar, em nome do Espírito Santo, que CRISTO ESTAVA DETERMINADO A FAZER BROTAR A PERNA EXTIRPADA AO NOSSO HOMEM, NO PRAZO DE CINCO DIAS, CASO ELE PAGASSE O DÍZIMO, FOSSE UNGIDO, ORASSE E JEJUASSE...
Em meio ao transe o Espírito afirmou que o portentoso milagre se daria logo pela manhã, assim que o ditoso crente acordasse.
Para tanto nosso homem não deveria cogitar ou constatar se a perna fora restituída, mas com toda fé deste mundo, pular da cama num salto! Graças a ele todos os médicos ateus e enfermos empedernidos do hospital, seriam convencidos da verdade e glorificariam a deus! Ao deus dos milagres representado pelo pastor.
Durante dos dias subsequentes os pastores e profetas foram enchendo a cabeça do pobre homem e de seus familiares, que no dia e na hora marcada ele fez exatamente como o espírito santo havia determinado: mal viu o primeiro raio de sol pulou do leito como uma gazela recém nascida...
Foi então que a obra aconteceu e nosso pentecostal recém operado veio abaixo, esborrachou-se e além de abrir os pontos da cirurgia inda quebrou o nariz!!!
De imediato acorreram os enfermeiros, médicos e enfermos em melhor estado de saúde e se inteiraram da história escabrosa que ora vos descrevo.
Resultado: Os médicos e enfermos ficaram mais céticos ainda e os protestantes foram proibidos de entrar no hospital por alguns meses, até a poeira baixar e tudo voltar ao 'normal'.
Depois voltaram a atormentar os enfermos e moribundos com seus gritos estridentes, como se nada tivesse acontecido.
E o enfermo?
É mesmo, já ia me esquecendo dele. As vezes viajo no embalo da história...
O enfermo, que era diabético, teve a cirurgia agravada, entrou em depressão e como resultado teve de amputar o que lhe restava da perna até a coxa.
Resultado: crendo na falsa profecia, que lhe prometia um brotamento da perna que lhe fora amputada, teve de amputar a metade da perna que lhe restara.
Como diz o ditado popular: Pensava em tosquiar e acabou sendo ele mesmo tosquiado.